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3 de março de 2025

Finanças vinculadas à sustentabilidade

Quaisquer que sejam os debates do momento entre os líderes políticos, o mundo está passando por rápidas mudanças climáticas. Nenhum político pode deter seu impacto crescente, embora muitos possam optar por ignorá-lo ou minimizá-lo.

Quaisquer que sejam os debates do momento entre os líderes políticos, o mundo está passando por rápidas mudanças climáticas. O impacto crescente é algo que nenhum político pode deter, embora muitos deles possam ignorá-lo ou minimizá-lo durante anos. Se há um lado positivo para os membros da World Alliance e para os agentes financeiros de suas jurisdições, é a criatividade crescente na definição de respostas financeiras que forneçam capital para as transições urgentes que a sociedade precisa realizar.

Nos negócios, como na vida, os incentivos importam. Reduzir carbono pode ser lucrativo.

Este artigo de opinião apresenta um panorama dos títulos e empréstimos vinculados à sustentabilidade, tomando como exemplo a empresa italiana de energia Enel. Uma empresa de energia poderia ser o último lugar onde procurar, o que só reforça o argumento: na verdade, todos os atores da sociedade em 2025 têm seu papel a desempenhar, incluindo os banqueiros e os especialistas em mercados de capitais, que podem responder positivamente às mudanças de posição de seus clientes corporativos.

O início em 2019

Eis o contexto: a Enel S.p,A. foi fundada em 1962 para criar uma empresa unificada de geração, transmissão e distribuição de eletricidade em nível nacional na Itália.

O primeiro título vinculado à sustentabilidade (SLB) do mundo foi emitido pela Enel em setembro de 2019. Era um título de cinco anos no valor de US$ 1,5 bilhão. Crucialmente, a meta era aumentar a participação da geração de energia renovável para 55% de toda a oferta da Enel até 2021, um prazo muito curto. O prospecto da oferta incluía uma penalidade pelo não cumprimento dessa meta: se a Enel não a atingisse, a taxa de juros do título aumentaria 25 pontos-base (0,25%). O interesse global por esse tipo de emissão foi evidenciado pela denominação do título em dólares americanos.

A inovação foi a seguinte. Ao contrário dos títulos verdes, que financiam projetos ambientais específicos, os títulos vinculados à sustentabilidade (SLBs) permitem que os recursos sejam usados para fins gerais, mas impõem penalidades financeiras se as metas de sustentabilidade não forem cumpridas. Esse modelo incentivou a Enel a acelerar sua transição para a energia renovável, tornando-o um divisor de águas nas finanças sustentáveis.

Os critérios de monitoramento

A Enel assumiu um risco financeiro considerável com esse compromisso. Como seriam estabelecidas e monitoradas as métricas da mudança na produção de energia? Em 2020, a Enel publicou o primeiro Sustainability-Linked Financing Framework (SLFF) do mundo, que estendeu a abordagem de financiamento vinculado à sustentabilidade a todos os instrumentos financeiros do Grupo (títulos, empréstimos, linhas de crédito, notas comerciais, garantias, derivativos de juros e de câmbio). Isso assegurou que os critérios de sustentabilidade fossem incorporados estruturalmente a todo o conjunto de instrumentos financeiros da empresa. Para tanto, foi estabelecido um conjunto de KPIs, metas e princípios ambiciosos e transparentes que regem o desenvolvimento das finanças sustentáveis em todo o grupo.

A evolução do pensamento corporativo

Durante o Capital Markets Day de 2021 da Enel, o grupo anunciou seu compromisso de descarbonizar totalmente a empresa até 2040, antecipando em dez anos completos a meta pública anterior para as emissões diretas e indiretas.

Além disso, em dezembro de 2022, o compromisso da Enel com o combate às mudanças climáticas atingiu um marco histórico, quando seu abrangente roteiro de descarbonização foi certificado pela Science Based Targets initiative (SBTi)[1] como compatível com a limitação do aquecimento global a 1,5 ºC. O planejamento de negócios da Enel ficou, assim, alinhado à meta de temperatura mais ambiciosa do Acordo de Paris, adotado pelas Nações Unidas em 2015. Especificamente, o plano adotado prevê que a Enel alcance 100% de sua geração de eletricidade livre de gases de efeito estufa até 2040 e também deixe de vender gás natural aos clientes finais. Claramente, esse trabalho e essas metas corporativas em evolução confirmam que faz sentido, do ponto de vista empresarial, que uma empresa de energia — mesmo uma empresa de energia! — adote e confirme regularmente seu papel de liderança na transição para a descarbonização. Igualmente claro é que isso faz sentido para seus parceiros financeiros e para os investidores que adquiriram esses instrumentos financeiros.

Em fevereiro de 2023, a Enel atualizou mais uma vez seu Sustainability-Linked Financing Framework, introduzindo um conjunto totalmente novo de KPIs vinculados à Taxonomia da UE e à redução das emissões de Escopo 3. Como parte da atualização e da inovação trazida ao mercado, a Enel acrescentou os seguintes KPIs:

  • Intensidade de emissões de gases de efeito estufa de Escopo 1 e 3 relativas à energia integrada
  • Emissões absolutas de gases de efeito estufa de Escopo 3 relativas ao gás para o varejo
  • e a proporção de CAPEX alinhada à Taxonomia da UE

O progresso continua

Em 2024, notáveis 84% da produção de energia do grupo estavam livres de gases de efeito estufa. Também no ano passado, a Enel foi a primeira empresa italiana a emitir um Sustainability-Linked Bond sênior em dólares com corretoras D&I[2] atuando como co-coordenadoras.

A Enel fez jus à sua missão corporativa declarada: “Construir o futuro por meio de energia sustentável. Estamos comprometidos em moldar ativamente um amanhã melhor, olhando além do presente. Reduzimos o impacto ambiental com soluções energéticas limpas, inovadoras e responsáveis, garantindo um mundo melhor para as gerações futuras.”

Os banqueiros, as corretoras e os investidores tornaram possível a trajetória da Enel.

Para a World Alliance

Nos próximos artigos de opinião da World Alliance, outros exemplos destacarão respostas em evolução dos serviços financeiros que facilitam a transição climática das empresas. Às vezes, mostrarão aqueles com um histórico como o que a Enel tem hoje; às vezes, simplesmente novas ideias de financiamento. Os fornecedores de serviços financeiros da Enel responderam, assim como a comunidade de investidores — há um trabalho lucrativo e muito necessário a ser feito nas finanças verdes.

[1] https://sciencebasedtargets.org/

[2] D&I é a abreviação usada para as corretoras que promovem a diversidade e a inclusão em seus quadros de pessoal.

Os artigos aqui publicados refletem as opiniões de seus respectivos autores e não necessariamente as da World Alliance.