O tema deste artigo de opinião é “a nuvem”, definida como a prestação de serviços de computação — incluindo servidores, armazenamento, bancos de dados, redes, software, análise de dados e inteligência — pela Internet (“a nuvem”), de modo a oferecer inovação mais rápida, recursos flexíveis e economias de escala. Abrir mão do controle direto da TI de uma empresa é uma decisão muito difícil para os líderes empresariais, mas as vantagens da nuvem são impossíveis de ignorar.
A mudança tecnológica afeta todas as áreas dos serviços financeiros, um setor que já é amplamente informatizado há décadas. Ao longo dos últimos séculos, seja no envio de notícias e preços por navio ou a cavalo, por telégrafo, por telefone ou pela internet, a constante no setor financeiro tem sido o impacto das tecnologias em transformação sobre o trabalho. Mais atrás no tempo, os preços do mercado de arroz de Osaka eram comunicados por sinais de fumaça através do arquipélago japonês. A mensagem é clara.
Os mercados membros da World Alliance encontram-se em estágios diferentes nos caminhos de adoção e implementação de todas as ferramentas e serviços de TI disponíveis em 2022. Os “pioneiros” na adoção de uma nova ferramenta ou serviço têm vantagens, mas também arcam com os custos do pioneirismo. Os “retardatários” também têm vantagens, à medida que os preços caem e os erros cometidos por outros podem ser evitados. Cada um deve considerar o seu próprio ambiente ao escolher, entre as possibilidades, o que precisa ser adotado e quais de suas estruturas de TI existentes devem então ser adaptadas para alcançar um resultado global melhor.
Introdução
Em setembro de 2022, a maior organização de infraestrutura de mercado dos EUA, a DTCC, publicou um estudo sugerindo que seus próprios processos e reflexões sobre a nuvem poderiam ser úteis, a título informativo, para colegas de todo o mundo.[1] A pesquisa e a publicação foram realizadas em conjunto com a Celent.
O autor deste artigo apresenta os destaques desse relatório apenas como um exemplo das questões que a nuvem suscita. Trata-se de um trabalho atual, que faz parte de um esforço de divulgação pública para garantir que o setor de serviços financeiros possa ter um debate global adequado. Agradecemos à DTCC e à Celent pela publicação de seu trabalho.
Contexto recente
Seguradoras, bancos, contadores, advogados e as próprias empresas de TI — o setor de valores mobiliários como um todo passou por grandes transformações desde a Grande Crise Financeira, há mais de uma década. Mudanças na regulação, na estrutura de mercado, nos modelos de negócios e na tecnologia levaram o setor a transformar profundamente seus modelos de processamento. Mesmo com a aceleração da velocidade da inovação, o ritmo de mudança da tecnologia que sustenta esses modelos avançou de forma mais constante — para alguns, de forma frustrantemente lenta. A súbita migração para o trabalho remoto provocada pela Covid acelerou os esforços de adoção da nuvem em todos os serviços financeiros, mas as aplicações e arquiteturas legadas muitas vezes continuam difíceis de modernizar. Ao mesmo tempo, o valor dos dados vem crescendo rapidamente, mas apenas para aqueles capazes de acessá-los e utilizá-los.
Para ajudar a compreender como seus clientes estão se preparando para esse mundo habilitado pela nuvem e orientado por dados, entre o final de 2021 e o início de 2022, a DTCC encomendou à Celent uma pesquisa sobre a adoção de tecnologia e os planos futuros de diferentes clientes. Os clientes da DTCC desempenham um papel fundamental na reinvenção e na construção dos mercados financeiros do futuro nos EUA e, muitas vezes, além deles, e por isso estão bem posicionados para compartilhar suas opiniões sobre a evolução da tecnologia em todo o setor de valores mobiliários.
A pesquisa da Celent constatou que, embora grandes progressos tenham sido feitos na digitalização e modernização dos parques tecnológicos, especialmente no que diz respeito à adoção da nuvem, desafios importantes permanecem. As empresas do setor de valores mobiliários têm de manter infraestruturas tecnológicas paralelas, o que aumenta os custos e, pior ainda, restringe a plena transformação digital.
E agora, a nuvem
O setor financeiro está evoluindo rapidamente com a convergência de muitos fatores, incluindo uma migração acelerada para os serviços digitais em resposta às necessidades dos clientes e de uma força de trabalho pós-pandemia. Em meio a exigências regulatórias em transformação e a um cenário de ameaças cibernéticas cada vez mais volátil, o jogo de forças entre essas influências evidencia a necessidade essencial de manter padrões elevados de resiliência e segurança tecnológicas. A migração em larga escala das operações para plataformas de nuvem pública, aliada ao imperativo de garantir a disponibilidade de dados limpos, oferece ao setor uma oportunidade geracional de se alinhar em torno de uma visão compartilhada.
A nuvem funciona como a infraestrutura compartilhada sobre a qual as empresas constroem. Para obter todos os benefícios para os negócios, a questão das melhores práticas e abordagens passa ao primeiro plano. Há mais de uma década, o foco da TI estava na personalização de pilhas tecnológicas completas dentro de cada empresa; agora, ele deve estar em viabilizar a governança, os controles e a segurança de plataformas modernas.
É difícil abrir mão do controle direto da TI e se comprometer com a nuvem, e será difícil — mas crucial — comprometer-se a permitir que os serviços das empresas ofereçam acesso a dados limpos sem comprometer os direitos de propriedade e a segurança. O benefício seria maior agilidade nos negócios e menor tempo de lançamento de serviços no mercado, tendo a conformidade regulatória como prioridade máxima. Há aqui um dilema para cada centro financeiro: as oportunidades surgem frequentemente quando um bem compartilhado pode trazer benefícios para todos, mas é uma verdadeira luta ir além da visão no nível da empresa para enxergar quais são as necessidades do mercado como um todo. A força que se contrapõe à coordenação em nível de mercado é, como sempre, a concorrência a ser considerada em cada mercado.
A Geração Z, nascida digital, está entrando rapidamente no mercado de trabalho e espera serviços financeiros sempre ativos e sempre disponíveis.
Dado o seu valor comercial, a área que mostra o maior potencial de transformação é a dos mecanismos de troca de dados. Embora o estudo DTCC/Celent tenha constatado que se espera uma aceleração do uso de mercados de dados, interfaces de programação de aplicações (APIs) e tecnologia de registro distribuído (DLT), mecanismos legados como fax, e-mail e planilhas continuam a receber altos níveis de suporte, apesar de um número decrescente de clientes que os utilizam.
Principais conclusões da pesquisa
Para os clientes da DTCC pesquisados, a adoção da nuvem é quase universal, ainda que em graus variados, com abordagens “cloud-first” e “cloud-native” hoje amplamente difundidas entre as empresas de valores mobiliários e de gestão de investimentos.
- Cerca de metade dos participantes do estudo pode ser classificada como “líderes em nuvem”. Muitos atores são “nativos da nuvem” em todos os seus novos desenvolvimentos.
- As três principais razões apontadas pelo buy-side e pelo sell-side para a adoção da nuvem foram: aumentar a agilidade dos negócios, a eficiência operacional e reforçar a segurança e a resiliência.
- A maioria dos participantes do estudo adotou uma abordagem federada para a adoção da nuvem, com um Centro de Excelência (CoE) central estabelecido como centro de expertise e consultoria, com alguma flexibilidade para que as equipes de tecnologia das áreas de negócios inovem e entreguem aplicações habilitadas pela nuvem dentro dos padrões e políticas definidos e supervisionados pelo CoE.
- Os mainframes continuam a sustentar o processamento central das empresas, e não é provável que isso desapareça. Avanços tecnológicos recentes, como a conteinerização de mainframes, estão permitindo que os mainframes suportem novas aplicações.
- A migração completa para os métodos mais recentes de troca de dados está efetivamente travada devido à necessidade de atender clientes menos sofisticados; as empresas estão contratando fornecedores para assumir e intermediar os clientes que não se adequam, de modo a não interromper o serviço.
- A troca de dados continua presa a abordagens manuais e baseadas em lotes; mas o estudo identificou métodos de transferência/troca de dados em tempo real, como mercados de dados, DLT e APIs. Espera-se que estes sejam dominantes nos próximos dois anos.
- A maioria das empresas considera-se relativamente imatura no uso de inteligência artificial e aprendizado de máquina (IA/AM), embora esteja experimentando. A IA/AM continua focada na resolução de problemas mais simples. Neste estudo, o desenvolvimento de IA/AM recebeu apenas 1%-5% dos orçamentos de tecnologia das empresas.
Conclusão
A atração pela nuvem e as suas possibilidades são reais. Enquanto isso, e como sempre, fique de olho nos orçamentos para ver para onde o dinheiro realmente vai.
[1] https://www.dtcc.com/-/media/Files/Downloads/DTCC-Connection/DTCC-Celent-Industry-Technology-Study.pdf.
Os artigos aqui publicados refletem as opiniões de seus respectivos autores e não necessariamente as da World Alliance.